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Os meus anos 70 - os trovadores do essencial

Sexta-feira, 28.10.11

 

Hoje trago aqui de novo dois trovadores, Graham Nash e David Crosby, que fizeram parte de um projecto que já aqui trouxe. Reparem nas vozes, nos sons e nas mensagens, como se interligam de forma clara e quase despida de toda a artificialidade. Como trovadores do essencial.

Estas viagens pelo Youtube levaram-me, pois, a descobrir temas que me marcaram dias límpidos… e eu tantas vezes sem saber de quem eram aquelas vozes, nessa altura isso era secundário, fixava-me nos sons, na mensagem, na ressonância que tinham nas minhas células e neurónios…

Só há uns anos descobri a amizade que os une, a mais genuína possível, tipo mosqueteiros, uma amizade que raramente vemos hoje em dia. Graham Nash nunca desistiu do amigo, como o próprio David reconheceu: o meu amigo salvou-me a vida, da dependência das drogas (não sei especificar qual delas). É um documentário inspirador que vale a pena descobrir.


Foi assim que resgatei ao tempo, como se o tempo não tivesse passado por cima de todos nós, este Graham Nash, There´s Only One, e é de arrepiar, sobretudo porque nunca mais o tinha ouvido. A Prison Song acompanhou-me muitos dias, gostava de a trautear. O Simple Man… E já agora Be Yourself, uma mensagem sempre actual.

 

Quanto a David Crosby, aqui vão as que melhor me acompanharam: Song With No Words (Tree Witn No Leaves), Laughing, Traction in The Rain, Music is Love, Tamalpais High (At About 3) e I'd Swear There Was Somebody Here.

 

Se a música dos meus anos 70 vem quase toda do outro lado do Atlântico? É verdade. Também os meus filmes vêm quase todos do lado de lá. Talvez a minha alma se dê melhor naquelas imensas planícies antes habitadas por índios: this land is not for sale… como no Thunderheart.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:19

A família como espaço de liberdade

Segunda-feira, 24.10.11

 

Associamos a família à ideia de refúgio e protecção (pais), apoio afectivo e elos fiáveis (casal), projecção no futuro (filhos). Mas raramente nos ocorreria associá-la à ideia de liberdade.

Algum dia leram o livro de George Orwell, 1984? Ou viram o filme? É mais um desafio que vos deixo, caros Viajantes.

No livro e no filme está lá essa ideia fundamental: o espaço de liberdade individual começa no espaço exacto dos afectos, dos laços afectivos. É aí que ele deixa de estar completamente só, vulnerável, exposto à domesticação social. 

Este primeiro espaço afectivo pode ser alguém significativo que cuidou dele, ou apenas a memória de alguém que o tenha olhado com carinho, ou mesmo ainda a memória remota de canções infantis. Essa é a base possível para poder reconhecer num outro alguém a possibilidade de construção de laços fiáveis, espaço onde mais ninguém pode entrar, esse mundo invasivo e manipulador.

Os tempos que vivemos actualmente, no país e na Europa, não são assim tão distantes desse lugar opressivo do 1984 de Orwell, estamos lá perto. Daí a importância da família-espaço de liberdade, dos afectos-espaço de liberdade, da amizade-espaço de liberdade, do respeito por si próprio e pelos outros-espaço de liberdade.  

 


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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:58

Os meus anos 70 – os anos felizes

Sábado, 22.10.11

 

Os meus anos 70 não foram todos eles felizes, houve anos muito bons e anos muito maus, pelo menos na forma como os senti. Mas os anos felizes, esses, estão para sempre ligados ao lado da saúde mental. Eu explico: a saúde mental está relacionada como o viver e deixar viver, com o respeito por si próprio e pelos outros, cultura que absorvi como uma esponja na infância e na adolescência.

Claro que esta máxima filosófica não era universal e muito do meu sofrimento posterior teve a ver com esse desajustamento, mas enfim… nesses anos de eterno verão essa máxima sobrepôs-se a todas as outras. Sentia-me feliz e estava rodeada de pessoas que se sentiam felizes. Não porque tivessem tudo o que materialmente se deseja num qualquer catálogo, mas simplesmente porque tinham o essencial: estavam vivas, de boa saúde, havia sempre legumes frescos na horta e fruta da época no quintal, as estações sucediam-se no tempo certo, a família estava unida para o melhor e para o pior, a primavera anunciava os meses de passeatas e mergulhos.

Havia uma sensação de desejo de futuro, e não era por ser adolescente, nos adultos sentia-se o mesmo. Havia uma sensação de novidade no ar, de promessas de novas experiências. Esta sensação misturava-se deliciosamente com uma sensação de conforto, de gratidão por estarmos todos ali, juntos, e não era preciso muito para fazer uma festa, um simples piquenique ou uma pequena viagem já eram uma aventura.


Hoje o que vejo à minha volta nada tem a ver com os meus anos 70. Há qualquer coisa de abafado e de opressivo, como se tivessemos recuado civilizacionalmente. A máxima saudável viver e deixar viver e o respeito por si próprio e pelos outros, perdeu-se no caminho. Se queremos manter a claridade de pensamentos e emoções temos de nos distanciar deste ruído constante e ir buscar essa brisa do eterno verão desses anos felizes.


Summer breeze sintetiza tudo. Há que resgatá-la dos nossos baús esquecidos, limpar o pó dos sótãos e das caves e tirar de lá fotografias de cores quentes e desmaiadas, para nos lembrarmos que já fomos assim, bem-humorados, gratos à vida, e felizes só por estarmos juntos.

Não estou a convidar ninguém para se alienar no passado, estou a propôr precisamente o contrário: resgatar a sua natureza original e autêntica para lidar de forma saudável com o difícil presente.


 

Nota breve: Escolhi a versão do Summer Breeze com o vídeo a lembrar as cores quentes das fotografias dos anos 70.

Já agora, na minha pesquisa sobre as composições dos Seals and Crofts (que desconhecia, só tinha fixado a sua brisa de verão), descobri estas duas, We May Never Pass This Way Again (with lyrics) e este delicioso You’re The Love. Dedico-as a todos os Viajantes que mantêm intacta a claridade dos anos felizes e que a sabem resgatar nos momentos difíceis.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:24

A acção inteligente e consequente no caminho da autonomia

Quarta-feira, 19.10.11

 

Todos procuramos fórmulas que funcionem, nas nossas vidas e à nossa volta. Uns, em busca do sucesso e da aprovação social, outros, para simplesmente sobreviver num mundo competitivo, outros ainda, os mais ambiciosos a meu ver, para realizar os seus sonhos e serem felizes.

Provavelmente, a maioria experimenta as várias fases deste caminho, há o tempo da simples sobrevivência, há o tempo do relativo sucesso profissional, há o tempo da materialização de um sonho antigo. 

Mas o verdadeiro sabor da autonomia, decidirmos pelas nossas vidas, sentirmo-nos perfeitamente alertas e despertos, conscientes do chão que pisamos, da sua consistência, dos seus obstáculos e perigos ou das suas oportunidades, esse sabor ainda não o experimentámos, a não ser em curtos períodos.

 

O caminho da autonomia não nos é apresentado na infância nem na adolescência, precisamente as épocas mais interessantes e promissoras do nosso desenvolvimento, em termos de inteligência e curiosidade. Nessas épocas promove-se precisamente a obediência e o conformismo, enquadrar numa forma de ver a realidade e de viver em comunidade. Com um pouco de sorte encontramos adultos que nos desafiam a pensar pela nossa própria cabeça, a descobrir as coisas, a não nos contentarmos com o que nos apresentam como real. E com mais sorte ainda, cruzamo-nos nas nossas vidinhas domesticadas com adultos divertidos, bem-humorados, gratos pela sua vida, por mais simples que nos pareça. Geralmente são pessoas de idade avançada e tempo para aturar uma criança ou um adolescente.

 

Confundir a actual liberdade de movimentos de uma criança ou de um adolescente com autonomia é um erro. O que se passa hoje é bem diferente: estão entregues a si próprios. Falta ali um elo humano de ligação à realidade, mesmo que inadequado ou baseado na tradição, mas ainda assim melhor do que a actual ausência e tantas vezes negligência. As pessoas que antes exerciam um qualquer papel formativo ou de formatação, são agora substituídas por pequenos acessórios: telemóveis, blackberries, ipods, consolas, etc. De criaturas formatadas por adultos passamos a criaturas dependentes virtuais. Antes os adolescentes treinavam a autonomia a pouco e pouco até sair de casa. Hoje saem, divertem-se e voltam para comer e dormir. 

 

Não preparámos uma geração de autónomos mas de autómatos. O que vemos hoje são pessoas paralisadas pelo medo do futuro, incapazes de agir de forma adequada a cada situação que se apresenta. A própria sociedade organizou-se a promover o conformismo geral: nós decidimos por si. Foi o que se viu. Os resultados estão à vista. Geriram mal o país, de forma negligente e danosa. E as pessoas deixaram-se conduzir e embalar, até porque iam recebendo ao longo da jornada aquelas promoções de marketing de massas, goze agora pague depois. 

Agora, acabada a festa, fica a ressaca, uma enorme dor de cabeça e um olhar atónito e incrédulo, de quem não previu nada disto. Agora a conversa oficial é outra evidentemente, até porque as elites pertencem à prata da casa, de uma sociedade que nunca se organizou para a responsabilidade: é tempo de sacrifícios. Sacrifícios, sacrifícios... esta palavra é martelada nas televisões, para que as pessoas se habituem a ela. Mas sacrifícios de quem? Até na escolha da palavra há um cinismo (ou uma imaturidade?) implícito: claro que os sacrifícios não são para todos os mortais.

A palavra sacrificios faz parte de uma narrativa muito bem montada, numa espécie de guião de filme de série inclassificável: 

 

(Vou fazer aqui um breve intervalo e já volto a tentar desenvolver a ideia que me surgiu esta manhã...)

 

Ainda alinhavei aqui uma linha de raciocínio, mas os resultados não me agradaram muito. Digamos que passar a vida a desmontar narrativas oficiais e estratégias de marketing político já não é muito motivador. Vamos então por outra linha: analisar, por exemplo, a escolha de uma das palavras-chave escolhidas por este governo, sacrifícios, e outra, medidas, e ainda outra, buraco ou desvio orçamental, e depois passar para a ideia que me interessa, da acção inteligente e consequente no caminho da autonomia. O que implica analisar o papel das lideranças que nos gerem e o que poderia ser.

 

As palavras-chave escolhidas pelo marketing político do actual governo revelam uma narrativa que se baseia numa espécie de correcção de desvios (ou desvarios) do governo anterior: 

- sacrifícios: palavra forte, com carga ética e religiosa, como um dever, uma obrigação, uma inevitabilidade. A sua escolha não foi inocente, mas ao ter banalizado a sua utilização, e ao não ter assegurado a sua universalidade (todos deveriam contribuir), perdeu credibilidade. Além disso, só se mobilizam cidadãos para contribuir na expectativa de obter resultados, num determinado período de tempo, de modo a libertar a economia dos actuais constrangimentos. 

- medidas: apresentadas a conta-gotas, de forma avulsa, sem coerência nem perspectivas práticas, nem uma avaliação séria das consequências. Com a agravante de não se aplicarem a todos de uma forma sensata e equilibrada. O facto da sua apresentação depender sempre da descoberta de mais um buraco ou desvio orçamental também levou à confusão geral e ao desânimo.

- buraco ou desvio orçamental:  já todos sabiam o que os esperava antes de acederem à gestão política, um país endividado e condicionado pelos credores. 

 

Como lidar com a situação crítica do país? Mobilizando os cidadãos. Este é o único caminho viável para um desafio desta dimensão. 

Como mobilizar os cidadãos? Com a aplicação de cortes na despesa estatal e de algumas receitas selectivas (as tais medidas) coerentes, consequentes, equilibradas, viáveis, baseadas numa comunicação exacta dos passos a dar e dos resultados que se podem esperar. Isto implica a universalidade das contribuições (os tais sacrifícios), e de forma proporcionada e equilibrada. Repito: a informação sobre a aplicação de cortes na despesa e da justificação das receitas (impostos) deve ser exacta, correcta, simples, para todos perceberem a sua necessidade.

 

Neste momento, vemos duas camadas sociais a distanciar-se cada vez mais: os decisores e as vítimas das suas decisões. Qualquer semelhança entre esta organização social baseada na cultura corporativa e os princípios básicos de uma democracia saudável, é pura coincidência. E isto também se passa a nível da UE.

 

A acção inteligente e consequente no caminho da autonomia é a fórmula mais adequada para a nossa situação actual. Aliás, aplica-se a todas as dimensões da nossa vida: familiar, social, profissional, cidadania. Baseia-se num princípio muito simples: o respeito por si próprio e pelos outros. Esta é a essência, a meu ver, de uma democracia saudável. Viver e deixar viver. Perspectivar a economia de uma forma abrangente, em que todos colaboram, activos e inactivos. Perspectivar a participação social e cívica de todos na restruturação das áreas-chave para reforçar a autonomia do país. Perspectivar as redes de apoio social, a nível local, aos mais vulneráveis, crianças e reformados.

 

Um desafio desta dimensão exige lideranças com uma cultura de séc. XXI e com alguma autonomia relativamente aos grupos de influência. Sem lideranças à altura deste desafio não vamos a lado nenhum. 

 

Como nos podemos nós distanciar emocionalmente deste pedalar em seco a escorregar para trás em plano inclinado? Impossível. Mesmo que não liguemos a televisão em hora de notícias, há sempre alguém que nos conta as últimas, com olhar atónito e voz aflita, porque não vê fim à vista. São uns a tapar os buracos e outros a abri-los noutro sítio. Esta situação não se pode manter muito mais tempo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:49

As vozes que me inspiram

Quarta-feira, 05.10.11

 

 

As vozes que me inspiram escolhem a simplicidade

e o recolhimento

são amáveis por natureza

o olhar límpido e brilhante

riem-se muito

e por vezes choram

 

As vozes que me inspiram são muito antigas

e sempre actuais

lembram velhinhas de rostos muito brancos

e sorrisos muito carinhosos e maternais

e quando falam é como um sussurro que mal se ouve

como um instrumento musical

a repetir a mesma frase


Lembro como quem viaja no tempo sem se mexer

essa verdade que aprendi ainda é a de hoje

antes no plano teórico agora no plano prático

as vozes que me inspiraram estavam certas

e as que me inspiram hoje também


Gostava de lhes dizer que estou aqui

neste preciso momento

de consciência clara, como um espelho

a reflectir encontros e desencontros

palavras e silêncios

e a claridade exacta

 

A síntese paradoxal que hoje sou

(ou penso que sou)

essa já é da minha inteira responsabilidade

Passei demasiado tempo a observar o mundo

e sempre através de janelas protectoras

só de vez em quando me atrevi a inundar-me de sol

O mundo sempre me assustou

toda essa agitação sem lógica nem sentido

mas que pode ser amável em pequenas doses

clareiras no tempo onde nos podemos abrigar 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 08:38








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